Quando surgiu e porque rezamos o terço

Ao longo dos séculos, os homens e mulheres, dos mais diferentes credos, utilizaram orações com fórmulas fixas para expressar a sua fé num ser transcendental. Essas orações conseguiam responder às necessidades da religiosidade humana, principalmente quando a fé era coletivamente partilhada, expressada por meio de cânticos e gestos.

Com o passar dos séculos e com o desenvolvimento cultural dos povos, nasceu o costume de se rezar orações curtas e propositalmente repetidas, numeradas das mais diferentes maneiras. Por exemplo, durante a recitação, para não perder o número de repetições, as pessoas costumavam usar inúmeros artifícios como, por exemplo, pedrinhas, ossinhos, grãos, ou simplesmente os dedos das mãos.

No mundo cristão

No mundo cristão

Entre os cristãos nasceu, também, o costume de utilizar fórmulas previamente decoradas, que aos poucos foram se estabilizando nas mais diferentes comunidades. Elas eram utilizadas, já no século IV, pelos monges que viviam solitariamente (eremitas), ou em comunidades (cenobitas), pois muitos deles haviam se convertido ao cristianismo e, por serem na maioria iletrados, preferiam substituir a recitação dos 150 Salmos por orações fixas, recitadas sucessivamente, e que eram contadas das mais diferentes formas.



Para facilitar a recitação e diminuir a preocupação da contagem das orações, foi-se aprimorado a confecção de pequenos cordões, nos quais eram fixados certo número de grãos, divididos em cinco partes de 10 grãos, cujo último grão de cada dezena tinha um tamanho maior, para localizar o término da dezena. Esses instrumentos eram chamados de “Paternoster” (no português: Pai Nosso), pois eram utilizados principalmente para a recitação repetida do Pai Nosso (Mt 6, 9-13). Com o tempo, os fabricantes de tais peças começaram a ser chamados de “Paternosterer“.

Nasce uma nova oração

Nasce uma nova oração

Paralelo à piedade acima descrita, os cristãos foram também utilizando os “Paternoster” para recitar a fórmula dita pelo Anjo Gabriel, quando veio avisar à Virgem Maria que ela ficaria grávida pelo poder do Espírito Santo, gerando, para toda a humanidade, o Salvador do Mundo, Jesus Cristo, nosso Senhor. Essa fórmula encontra-se no Evangelho de São Lucas (Lc 1,28): “Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco”, à qual se somou a saudação de Isabel à Maria: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). A fórmula que se segue à saudação do Anjo (Santa Maria, Mãe de Deus…) foi sendo introduzida posteriormente pela piedade cristã, conhecida desde o século V.

Lá pelo ano 1000 da nossa era, fixou-se o número 150 Ave-Marias, sob inspiração bíblica, os monges rezavam 150 salmos diariamente. Ora, como os fiéis não conseguiam rezar o Ofício Divino como eles, decidiram que, ao menos, recitariam 150 Ave-Marias.

O nome “Rosário” e seu desenvolvimento

Rosário

Quanto ao nome “Rosário”, só foi fixado a partir do século XIII, quando ficou conhecida a história de um monge cisterciense que rezava sempre 50 Ave-Marias, cujas palavras saíam de seu lábios como se fossem “rosas” que iam sendo colocadas, em forma de coroa, sobre a cabeça da Virgem Santíssima.



Merece destaque, na fixação da forma como recitamos o Terço em nossos dias, o monge cartuxo Henrique de Egher (+1408), que escreveu um poema intitulado “Psalterium Beatae Mariae” (Saltério de Santa Maria), sugerindo que antes de cada dezena de Ave-Maria fosse recitado um Pai-Nosso.

Surge assim, antes de cada dezena, uma conta separada e maior, para que fosse destacada a oração que o Senhor nos ensinou. Porém, será o monge cartuxo Domingos Rteno (século XV) quem vai propor a meditação dos mistérios da vida de Jesus, antes pelo dominicano Alano de Rocha (+1475), que sugeriu a meditação dos 15 mistérios principais da obra de redenção trazida por Jesus, que vai desde a Anunciação do Anjo a Maria à sua Assunção.

A fixação definitiva

Deve-se, finalmente, ao Papa dominicano Pio V (1566-1572) a forma atual do rosário, com a determinação do número de Ave-Marias e Pai-Nossos, assim como o teor do mistérios que o vem integrar. Foi esse Papa quem atribuiu à intercessão da Virgem a vitória das tropas cristãs na Batalha de Lepato, em 7 de outubro de 1571, quando os cristãos venceram os turcos otomanos, salvando de grande perigo os cristãos do Ocidente. Surge, assim, a festa de Nossa Senhora do Rosário, primeiramente celebrada pelos dominicanos, mas, depois, estendida a toda igreja, a partir de 1716. Posteriormente, o Papa Leão XIII (+1903) vai sugerir que em todo mundo cristão, durante o mês de outubro, recite-se, nas paróquias, o Rosário de Nossa Senhora.

Muitas outras devoções vão surgir no seio da Igreja, sendo um retrato da fé do povo de Deus, especialmente dos mais humildes. Nascem, então, as ladainhas, as novenas, as trezenas, os tríduos, a Coroa dos Crucíferos, a Coroa Angélica e muitas outras fórmulas e expressão de religiosidade popular.

A preferência de se rezar “um terço” do Rosário

O costume de se rezar “um terço” do rosário (50 Ave-Marias) se deve à simplificação natural dada pelos cristãos, que, para não recitar o rosário mecanicamente, resolveram dividi-lo em três partes, cada uma com seu mistério próprio (glorioso, gozoso e doloroso) e dias pré-estabelecidos. Posteriormente, o Papa São João Paulo II (+2005) introduzirá na igreja, a partir de 10 de outubro de 2002, os Mistérios Luminosos, passando o Rosário a contar, desde então, com 200 Ave-Marias, deixando fixado o nome “Terço”, como a tradição o quisera.



Todas essas expressão orantes não são apenas a de uma recitação meramente vocal. Elas desejam criar um clima contemplativo, permitindo a meditação e o aprofundamento dos mistérios da nossa fé, que nos impulsiona a viver, em profundidade, toda a vida eclesial, cujo cume se centra na celebração dos Sacramentos, especialmente da eucaristia, num profundo mergulho da Palavra de Deus e numa fé que se traduz em obras de amor ao próximo.

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