O misterioso e fecundo Espírito Santo

Por Dom Henrique Soares da Costa

Caro Amigo, aqui vai outro belo texto sobre o Espírito Santo. É do grande teólogo São Basílio Magno, Bispo do século IV, que muitíssimo ajudou a Igreja a compreender a divindade do Espírito Santo.

Qual é o homem que, ao ouvir os nomes com os quais é designado o Espírito Santo, não eleva seu ânimo e o seu pensamento para a Natureza divina?
É chamado Espírito de Deus, Espírito da verdade que procede do Pai, Espírito de retidão, Espírito principal, e como nome próprio e peculiar, Espírito Santo.

Observação minha:
A palavra “espírito”, “pneuma” em grego, ar, sopro, vento, indica movimento, força, liberdade, mistério. O “Espírito” evoca o misterioso, o invisível, o incontrolável, soberano e surpreendente em Deus.
Afirmar que este Espírito é “Santo” é afirmar que Ele é divino, pois só Deus é Santo!
Interessante o título de “Espírito Principal”, significando que o Espírito é “princípio” de todos os bens, de todos dons e carismas. É com este título que o Espírito é invocado sobre o que vai ser ordenado Bispo na Igreja: o Espírito de principalidade, que faz do Bispo “príncipe” [princeps], isto é, princípio na sua Igreja diocesana seja da distribuição dos ministérios e atividades como no discernimento dos carismas: este é o seu serviço episcopal, a ser realizado com o mesmo Espírito Daquele que veio para servir e não ser servido – portanto, nada a ver com o sentido de “príncipe” enquanto pompa ou poder político.



Assim, cada Bispo, inclusive o Bispo de Roma, na sua própria Igreja particular, é príncipe, é “princeps”, princípio na pregação da fé apostólica, princípio na administração dos sacramentos, na distribuição dos mistérios, no discernimento dos carismas, no exercício da caridade, enfim, no pastoreio da porção do Povo santo que o Senhor Lhe confiou! Quando Pedro é dito Príncipe dos Apóstolos é neste sentido: ele é princípio da unidade do Colégio apostólico, como o Bispo de Roma é princípio visível da comunhão do Colégio dos Bispos; o princípio sacramental é a Eucaristia única, indivisível, concelebrada por toda a terra ou ao redor do mesmo altar, num mesmo lugar; o princípio último do Colégio Episcopal é o próprio Espírito de multiplicidade, unidade e comunhão, recebido por todos na Eucaristia, quando o Paráclito “nos une num só corpo” e que sustenta o Bispo de Roma na sua missão, desde que este lhe seja dócil.

Volta-se para Ele o olhar de todos os que buscam a santificação; para Ele tende a aspiração de todos os que vivem segundo a virtude; é o Seu sopro que os revigora e reanima para atingirem o fim natural e próprio para que foram feitos.

Observação minha:
A santificação de que se fala aqui não é simplesmente uma vida reta, mas algo muito mais profundo: só Deus é o Santo; ser santificado é ser divinizado, é receber a Vida divina, a Vida do próprio Deus. Ora, ser divinizado é a finalidade da vida humana: o ser humano se não receber a Vida divina não chegará àquilo para que Deus o criou. Somos chamados a receber o Espírito do Filho, que nos diviniza e nos faz filhos no Filho Jesus. O mesmo São Basílio afirma que o homem é aquele ser que recebeu a vocação de se tornar deus, recebendo a Vida de Deus.

Ele é fonte da santidade e luz da inteligência; é Ele Quem dá, de Si mesmo, uma certa iluminação à nossa razão natural para que encontre a verdade.

Observação minha:
Aqui se coloca o tema da relação entre natural e sobrenatural. O homem é naturalmente perfeito, mas, por outro lado, é da sua própria natureza perfeita ser aberto e necessitado de Deus: o homem, por si mesmo, nos simples limites de sua própria natureza, não é pleno! Deus o criou assim porque desde sempre queria dar-Se-lhe em comunhão. Assim é que o Espírito ilumina a razão humana, fazendo-a ultrapassar a si própria, a desabrochar suas potencialidades e chegar à plena comunhão com Deus. Todo ser humano é chamado a essa comunhão e somente nela é plenamente humano. Não existe plenitude humana simplesmente natural, não existe plenitude humana fora da comunhão com Deus! Sem esta comunhão, o homem se deforma e se destrói a si próprio pessoal e socialmente!




Inacessível por Sua Natureza, torna-Se acessível por Sua bondade. Enche tudo com o Seu poder, mas comunica-Se apenas aos que são dignos; não a todos na mesma medida, mas distribuindo os Seus dons em proporção da fé. Simples na essência, múltiplo nas manifestações do Seu poder, está presente por inteiro em cada um, sem deixar de estar todo em todo lugar. Reparte-Se e não sofre diminuição. Todos Dele participam e permanece íntegro, à semelhança dos raios do sol que fazem sentir a cada um a Sua luz benéfica como se fosse para Ele só e, contudo, iluminam a terra e o mar e se difundem pelo espaço.

Observação minha:
Temos aqui um tema muito importante quando se fala sobre o Espírito Santo: Ele é um só, mas o Seu modo de agir é diversificado, Seus efeitos são múltiplos: em cada sacramento Ele suscita um efeito diverso; na Igreja Ele gera a diversidade e garante a unidade; recorda-nos sempre o que Cristo disse e fez e, por outro lado, impele a Igreja para o futuro, para o encontro com o Esposo. Como diz um belo cântico: “Vós sois riqueza, sois variedade; por Vós há mil maneiras de ser bom!”

Assim é também o Espírito Santo: está presente em cada um dos que são capazes de recebê-Lo, como se estivesse nele só, e, não obstante, dá a todos a totalidade da graça de que necessitam. Os que participam do Espírito recebem os Seus dons na medida em que o permite a disposição de cada um, mas não na medida do poder do mesmo Espírito.

Por Ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão Consigo.

Observação minha:
Atenção à palavra “espiritual”; não significa “imaterial”, mas “espirituado”, isto é, pleno do Espírito. “Espiritual”, “espirituado” leva o homem que recebeu o Espírito nos sacramentos a ser divinizado, pois que o Espírito é fonte de divinização!

E como os corpos límpidos e transparentes, sob a ação da luz, se tornam também extraordinariamente brilhantes e irradiam um novo fulgor, da mesma forma também as almas que recebem o Espírito e são por Ele iluminadas tornam-se espirituais e irradiam sobre os outros a graça que lhes foi dada.

Observação:
Belíssima imagem da ação do Espírito Ele em nada nos violenta, mas nos liberta, desenvolve e faz aflorar em nós todas as nossas potencialidades, o que temos de melhor. Sendo água que queima e fogo que refresca, Ele nos limpa de toda impureza de pecado, nos liberta de toda escravidão e nos faz entrar na liberdade dos filhos de Deus.

Dele procede a previsão do futuro, a inteligência dos mistérios, a compreensão das coisas ocultas, a distribuição dos carismas, a participação na vida do Céu, a companhia dos coros dos anjos.
Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; Dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado.


Observação minha:
Nunca esqueçamos isto: nosso destino é a divinização, isto é, a participação na natureza divina. É o Espírito do Cristo ressuscitado Quem nos dá esta graça. A proclamação do Evangelho nos anuncia este destino e nos convida à conversão, enquanto os sacramentos nos dão a Vida divina que agora invade plenamente a humanidade ressuscitada do senhor Jesus e nos vem pelo Espírito que habita Nele em plenitude e que Ele nos dá precisamente nos sacramentos. Esta é a essência do cristianismo. Todo o resto decorre disso e para isso deve encaminhar

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