O Espírito é como a água

Por: Dom Henrique Soares

Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém (séc. IV), Bispo:

A Água que Eu lhe der se tornará nele fonte de água viva, que jorra para a vVda eterna (Jo 4,14). Água diferente, esta que vive e jorra; mas jorra apenas sobre os que são dignos Dela.

Observação minha:
São Cirilo sabe que a Escritura usa a água como imagem do Espírito Santo. Esta Água jorra de Jesus ressuscitado: é Ele o verdadeiro poço que, mais que o poço de Jacó, dá a Água que sacia nossa sede de Vida; Ele mesmo convida: “Quem tiver sede venha a Mim e beba!”

Por que motivo o Senhor dá o nome de “água” à graça do Espírito Santo? Certamente porque tudo tem necessidade de água; ela sustenta as ervas e os animais. A água das chuvas cai dos céus; e embora caia sempre do mesmo modo e na mesma forma, produz efeitos muito variados. De fato, o efeito que produz na palmeira não é o mesmo que produz na videira; e assim em todas as coisas, apesar de sua natureza ser sempre a mesma e não poder ser diferente de si própria. Na verdade, a chuva não se modifica a si mesma em qualquer das suas manifestações. Contudo, ao cair sobre a terra, acomoda-se às estruturas dos seres que a recebem, dando a cada um deles o que necessita.


Observação minha:
É perfeita a teologia de Cirilo! O Espírito é Vida, é Vida divina. Mais que dá a Vida, Ele é a Vida divina que Cristo nos dá! Mais que nos glorificar, Ele é a própria Glória com a qual o Pai glorificou o Filho e o Filho nos deu essa Glória recebida do Pai! Mais ainda: o Espírito Santo em nós, a nós Se acomoda, isto é, nos potencializa, suscita em nós o melhor de nós mesmos! Ele não nos descaracteriza; Ele, graça pessoal de Deus em nós, respeitando o nosso ser e nossas aptidões, as eleva ao máximo para a glória de Deus em Cristo e a construção do Seu Reino. Um é o Espírito, mas diversos são Seus frutos e Seu modo de manifestar-Se. Também nos sacramentos: em cada um deles nos é dado o Santo Espírito, mas em cada um deles o efeito provocado por esse Espírito único é diverso! É isto que o Santo Bispo de Jerusalém deseja exprimir aqui!

Com o Espírito Santo acontece o mesmo. Sendo único, com uma única maneira de ser e indivisível, distribui a graça a cada um conforme Lhe apraz. E assim como a árvore ressequida, ao receber água, produz novos rebentos, assim também a alma pecadora, ao receber do Espírito Santo o dom do arrependimento, produz frutos de justiça. O Espírito tem um só e o mesmo modo de ser; mas, por vontade de Deus e pelos méritos de Cristo, produz efeitos diversos.

Serve-Se da língua de uns para comunicar o dom da sabedoria; ilumina a inteligência de outros com o dom da profecia. A este dá o poder de expulsar os demônios; àquele concede o dom de interpretar as Sagradas Escrituras. A uns fortalece na temperança, a outros ensina a misericórdia; a estes inspira a prática do jejum e como suportar as austeridades da vida ascética; e àqueles o domínio das tendências carnais; a outros ainda prepara para o martírio. Enfim, manifesta-Se de modo diferente em cada um, mas permanece sempre igual a Si mesmo, como está escrito: A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum (1Cor 12,5).

Branda e suave é a Sua aproximação; benigna e agradável é a Sua presença; levíssimo é o Seu jugo! A Sua chegada é precedida por esplêndidos raios de luz e ciência. Ele vem com o amor entranhado de um irmão mais velho: vem para salvar, curar, ensinar, aconselhar, fortalecer, consolar, iluminar a alma de quem O recebe, e, depois, por meio desse, a alma dos outros.

Quem se encontra nas trevas, ao nascer do sol recebe nos olhos a sua luz, começando a enxergar claramente coisas que até então não via. Assim também, aquele que se tornou digno do Espírito Santo, recebe na alma a Sua luz e, elevado acima da inteligência humana, começa a ver o que antes ignorava.


Observação minha:
Aqui não temos afirmações simplesmente piedosas ou líricas; temos teologia profunda, temos verdade sólida e bela! Toda experiência que temos do amor do Pai é fruto da ação do Espírito; toda fé que temos em Jesus, toda convicção profunda de que Ele é o Senhor é ação do Espírito em nós; toda compreensão verdadeira que temos dos mistérios de Deus e de Seu desígnio de salvação, toda compreensão que temos e sentimos com afeto e gosto do mistério da Igreja, é obra do Espírito Santo. Aquilo que parece simples sentimento humano ou simples ação de nossa inteligência, aquilo que parece simples intuição nossa, é dom, é fruto, é ação do Santo Espírito de Deus que nos dá a conhecer o que é do Pai e do Filho! Pense bem: quanto de ação do Santo Espírito podemos descobrir e reconhecer em nós!

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