Batizados no Espírito Santo

Por Dom Henrique Soares

Do Tratado sobre a Trindade, de Dídimo, o Cego, teólogo da Igreja de Alexandria (séc IV):

O Espírito Santo, que é Deus juntamente com o Pai e o Filho, nos renova pelo Batismo; e do nosso estado de imperfeição, reintegra-nos na beleza primitiva.

Torna-nos de tal forma repletos de Sua graça, que não podemos admitir em nós qualquer coisa que não deva ser desejada.

Além disso, liberta-nos do pecado e da Morte. E de terrenos que somos, quer dizer, feitos do pó da terra, nos faz espirituais, participantes da Glória divina, filhos e herdeiros de Deus Pai.


Observação minha:

Note que beleza de teologia! Quantas vezes ouvimos dizer que o Batismo apaga em nós o pecado original, faz-nos filhos de Deus e membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, e herdeiros do céu? Mas, quase ninguém ou mesmo ninguém nos explicou o motivo de tudo isto! Pois aqui, Dídimo explica perfeitamente: no Batismo recebemos o Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho (Amor dado pelo Pai e recebido pelo Filho).
Primeiramente, onde está o Espírito de Amor aí estão, concomitantemente, o Amante e o Amado, o Pai e o Filho. Veja como Dídimo apresenta esse Batismo no Espírito (simbolizado pela água):

o Espírito nos renova, pois em nós elimina o fechamento provocado pelo pecado original;
o Espírito potencializa nossa natureza humana, plantando nela aquilo para que ela foi criada: participar da Natureza divina.

Mais ainda: ao contrário do que dizia erradamente Lutero e diz ainda a tradição oriunda da Reforma, o Batismo, ao nos dar o Santo Espírito, nos renova verdadeiramente, fazendo-nos novas criaturas, de modo que, naquele que foi batizado nada há que desagrade a Deus! Não só somos chamados filhos; mas o somos de fato; não só somos chamados santos, mas verdadeiramente assim fomos tornados!

O Batismo, por nos dar o Espírito que ressuscitou o Filho Jesus, nos faz filhos no Filho e, dando-nos as primícias da Vida divina, que é o próprio Santo Espírito, dá-nos já o penhor, o verdadeiro início da vida gloriosa da ressurreição.

Faz-nos ainda conformes à imagem do Filho, Seus co-herdeiros e irmãos, destinados a ser um Dia glorificados e a reinar com Ele.

Em vez da terra, dá-nos de novo o céu, abre-nos generosamente as portas do paraíso, honra-nos mais do que os próprios anjos.

E com as águas divinas do Batismo, apaga as imensas e inextinguíveis chamas do inferno.

Observação minha:

Atenção, meu Amigo: tudo isto o Batismo nos faz porque sobre aquela água bendita foi invocado o Espírito Santo, de modo que, batizados com água fomos mergulhados no Espírito! O Batismo no Espírito Santo é o único batismo do cristianismo – e não tem nada a ver com o “batismo no Espírito” de que falam os carismáticos… Ali se trata apenas de uma experiência sentida e saboreada do Espírito Santo… Essa experiência dos carismáticos não é essencial para o nosso ser cristão. Já o Batismo no Espírito, isto é, o sacramento do Batismo, é essencial: quem não nascer da água e do Espírito, isto é, da água, canal e instrumento do Espírito, não poderá ver o Reino de Deus!

Os homens são concebidos duas vezes: uma corporalmente, a outra, pelo Divino Espírito. Acerca de um e de outro nascimento, escreveram muito bem os autores sagrados. Citarei o nome e a doutrina de cada um. João diz: “A todos que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em Seu Nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo” (Jo 1,12-13).

Todos os que acreditaram em Cristo, afirma ele, receberam a capacidade de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, do Espírito Santo, e participantes da Natureza divina. E para ficar bem claro que o Deus que gera é o Espírito Santo, acrescenta estas palavras de Cristo: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

Observação minha:

Quando Dídimo afirma que nascemos corporalmente, quer dizer que nascemos segundo a natureza humana, nascemos num nível meramente natural, psíquico. Infelizmente, ele aqui revela um dualismo exagerado, que não condiz totalmente com as Sagradas Escrituras. O correto é compreender aqui “corpo” não somente como nossa dimensão material, mas como todo o nosso ser no seu nível simplesmente natural. Então, corpo deveria significar aqui todo o meu ser. Outra coisa: Dídimo não afirma que somos filhos do Espírito Santo. Isto seria heresia! É o Pai que nos gera de novo, nos regenera, no Espírito. Então: nascemos do Pai através do Filho no Espírito! Do Pai somos filhos, do Filho somos irmãos, do Espírito somos templos!

Finalmente, mais uma vez, nosso Autor insiste em que o Batismo realmente nos renova, fazendo-nos participar da Natureza divina. Para nossos irmãos protestantes de modo geral, o Batismo é apenas uma declaração de que cremos em Jesus. Nós mesmos continuamos pecadores, com uma natureza corrompida, incapaz de obras que sirvam para a salvação. Isto está errado: é contra as Escrituras e contra a constante Tradição apostólica!

A fonte batismal dá à luz de maneira visível nosso corpo visível, pelo ministério dos sacerdotes; mas o Espírito de Deus, invisível a todas as inteligências, é que batiza e regenera simultaneamente o corpo e a alma, pelo ministério dos anjos.



Observação minha:

Recorde minha observação anterior… Pois bem: nascemos segundo a vida meramente natural no nosso corpo e na nossa alma. Agora, pelo Batismo, por ação do Espírito Santo, renascemos em todo o nosso ser, corpo e alma, para uma Vida sobrenatural. Nosso corpo e nossa alma vão se tornando “espirituados”, isto é, transfigurados pelo Espírito de Cristo Jesus… Vamos sendo cristificados! É preciso não confundir espiritual no sentido de imaterial (isto a alma o é desde o primeiro momento) com espiritual no sentido de espirituado, transfigurado pelo Espírito Santo (isto a alma vai se tornando, juntamente o corpo, graças ao dom do Santo Espírito, que de homens psíquicos, faz-nos homens espirituais).

João Batista, historicamente e de acordo com esta expressão: “da água e do Espírito”, diz a respeito de Cristo: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Mt 3,11; Lc 3,16).

Como um vaso de barro, o homem precisa primeiro ser purificado pela água; em seguida, fortalecido e aperfeiçoado pelo fogo espiritual (Deus, com efeito, é um fogo devorador). Precisamos, portanto, do Espírito Santo para nossa perfeição e renovação. Pois o fogo espiritual sabe também regar, e a água batismal é também capaz de queimar como o fogo.

Observação minha:

Que imagem estupenda: o Espírito é surpresa, é incontrolável pelo homem!
O Espírito subverte nossas expectativas e ultrapassa nossa pobre razão:

Ele é água que queima e fogo que rega!
Queimando, purifica; regando, dá vida!

Queimando, destrói o velho Adão; regando, gera o homem novo à imagem do Cristo Jesus!
É esta a graça do santo Batismo – e tudo isto porque naquela água bendita que queima e rega, recebemos o Santo Espírito de Cristo morto e ressuscitado!



E de onde vem tal água? Invocado o Santo Espírito sobre ela, já não mais é água deste mundo, mas água jorrada do lado aberto do Cordeiro, que eternamente encontra-Se diante do Pai, “de pé como que imolado” (Ap 5,6). É Ele o verdadeiro poço de Jacó, do qual brota e brotará eternamente o rio de água viva que jorra para a Vida eterna” (Jo 4,14).

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